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Cráton São Luís e Cinturão Gurupi

Localização e definição


Na divisa norte dos estados do Pará e do Maranhão, marcada pelo rio Gurupi, afloram rochas do Cráton São Luís e do Cinturão Gurupi. O fragmento cratônico de São Luís é visto como parte do Cráton do Oeste Africano, se integrando ao continente sul-americano após a separação do Pangea (1). Também é descrito como parte de um orógeno acrecionário Riaciano, desenvolvido entre 2240 e 2000 Ma (2). O limite com o Cinturão Gurupi, orógeno neoproterozoico desenvolvido na sua borda sul-sudoeste, é marcado pela zona de cisalhamento Tentugal (3).


Figura 1 - (A) Localização do Cráton São Luís e do Cinturão Gurupi. (B) Mapa geológico simplificado do Cráton São Luís com localização dos principais depósitos e ocorrências minerais. (C) Mapa geológico simplificado do Cinturão Gurupi com localização dos principais depósitos e ocorrências minerais. Fonte: Klein (2014).


Geologia do Cráton São Luís


Grupo Aurizona (4)


Esta unidade compreende uma sequência metavulcanossedimentar metamorfisada em fácies xisto-verde, localmente fácies anfibolito. É composta por xistos, filitos, quartzitos, metachert, rochas metapiroclásticas, metamáficas e metaultramáficas (5). A datação de cristais de zircão de uma rocha metapiroclástica definem uma idade de 2240 ± 5 Ma para essa unidade (6).


Suíte Intrusiva Tromaí (7)


Trata-se de um conjunto vulcano-plutônico, constituído por tonalitos, trondhjemitos, granodioritos (TTG), granitos, quartzo-andesitos, riolitos e dacitos. Os granitoides Tromaí são cálcio-alcalinos e metaluminosos, do tipo I, com padrões de ETR e elementos traço comparáveis aos de granitoides relacionados a arcos vulcânicos e zonas de subducção e/ou ambientes pós-colisionais de orogêneses fanerozoicas. Dados geocronológicos em zircão mostram idades de cristalização entre 2148 ± 4 Ma e 2165 ± 2 Ma (6).


Suíte Intrusiva Tracuateua (8)


Composta por rochas isotrópicas a foliadas, com biotita e muscovita e enclaves de xistos e migmatitos. São compatíveis com granitoides tipo S, peraluminosos, derivados de fusão de rochas crustais (meta) sedimentares (9). Idades de cristalização em zircão estão entre 2086 e 2091 Ma (10).


Depósitos de ouro orogênico


Os depósitos auríferos do Cráton São Luís concentram-se no noroeste do Maranhão, no Distrito Aurífero de Aurizona, próximo à costa atlântica. A propriedade inclui uma licença de mineração ativa e doze licenças de exploração, sendo todas detidas pela Equinox, por meio de suas subsidiárias integrais MASA e Luna Gold Pesquisa Mineral LTDA (Luna Gold). As jazidas de Piaba e Boa Esperança, bem como vários alvos de exploração próximos à mina, estão abrangidos pela licença de mineração. Existem dois pedidos de licença de mineração que incluem as jazidas de Tatajuba, Genipapo e Touro.


Reservas Minerais Estimadas


As reservas da Mina Aurizona são baseadas na conversão de recursos Medidos e Indicados nas minas a céu aberto de Piaba, Piaba Leste, Boa Esperança, Tatajuba e Genipapo. As reservas também incluem a conversão dos recursos Medidos e Indicados no projeto subterrâneo de Piaba. Os recursos medidos são convertidos para Reservas Provadas e os recursos indicados são convertidos diretamente para Reservas Prováveis.

Figura 2 - Mina Aurizona – Reservas Provadas e Prováveis – 30 de junho de 2021. Fonte: Technical Report on the Aurizona Gold Mine.


Piaba


Piaba é um depósito de ouro orogênico, tabular e estruturalmente controlado com um comprimento de cerca de 3,3 km, largura de 10 – 50 m, e extensão de mergulho de pelo menos 700 m, além da qual o depósito é pouco explorado.

Figura 3 - Piaba Pit – agosto de 2021 (olhando para o oeste). Fonte: Technical Report on the Aurizona Gold Mine.


A mineralização é principalmente hospedada no quartzo-diorito, também descrito como um granodiorito granofírico. A alteração relacionada ao minério inclui forte a intensa alteração sericita-carbonato-sílica-sulfeto na parte central da estrutura, ladeado por alteração de clorita dominante no footwall e no hangingwall.


Figura 4 - Alteração hidrotermal e estilos de mineralização em Piaba. Stockwork em um (A) granodiorito de grão fino e alterado com mineralização disseminada e (B) tufo félsico fracamente alterado e mineralizado com veios de quartzo-carbonato. (C) Sericita e pirita disseminada. (D) Sericita substituindo o plagioclásio. (E) Ouro (setas) ocorrendo como inclusão em pirita, em contato com carbonato e pirita em fraturas de quartzo, e em contatos de grão de quartzo (seta mais baixa). Observe que a calcita substitui a pirita. (F) Pirita, calcopirita e esfalerita no tufo félsico fracamente mineralizado. Abreviaturas minerais: Py — pirita, Ccp — calcopirita, Sph — esfalerita, Qtz — quartzo, Ser — sericita, Chl — clorita, Cal: calcita, Pl — plagioclásio. Fonte: Klein et al. (2015).


O ouro ocorre em escala fina, de milímetros a centímetros. O ouro nativo raramente é observado nos contatos de parede entre veio-rocha. Os veios extensionais de quartzo-carbonato são sub-horizontais e podem conter ouro. O aumento da densidade dos veios e a abundância de sulfetos são os melhores indicadores de mineralização de ouro. (11)


Inclusões fluidas, isótopos estáveis e dados de isótopos radiométricos indicam que o depósito de Piaba foi formado a partir de um fluido metamórfico aquoso-carbônico reduzido, de baixa salinidade, com deposição do minério ocorrendo a 250–330 °C, 1,25 a 2,8 kbar (4 – 9 km de profundidade), e entre 1,98 – 2,01 Ga. (12)


Geologia do Cinturão Gurupi


Complexo Maracaçumé (4)


Essa unidade representa porções mais basais da crosta, aflorando em contato tectônico com as demais unidades do domínio Gurupi. É dominada por ortognaisses de composição tonalítica, trondhjemítica e granodiorítica, além de paragnaisses, com efeitos variados de migmatização, tendo suas rochas atingido condições metamórficas de fácies anfibolito médio a alto.


Kinzigito Marajupema (4)


Reúne quartzitos feldspáticos contendo cordierita, granada, muscovita, biotita e plagioclásio, associados a muscovita-quartzitos, sendo restrita ao domínio Gurupi, ocorrendo próximo ao contato entre o Complexo Maracaçumé e o Grupo Gurupi.


Grupo Gurupi (4)


Similarmente ao Grupo Aurizona, é constituído por um conjunto metavulcano-sedimentar metamorfisado em facies xisto verde, localmente anfibolito. Pode ser subdivido em três formações, de nordeste para sudoeste: Rio Piritoró – sequência pelítico-carbonosa-fosforítica de águas não muito rasas e grau metamórfico muito baixo a anquimetamórfico –; Jaritequara – sequência pelítica metamorfizada até xisto verde alto –; e Vila Cristal – composta por xistos feldspáticos bandados, contendo granada, cloritoide e estaurolita, metamorfisados em fácies epidoto-anfibolito a anfibolito. (8)


Granitos, Granitoides e Sienito-Gnaisse


Afloram, na região, o Granito Maria Suprema (4) - leucogranito composto por quartzo, feldspatos, biotita e muscovita, além de zircão, apatita e ocasional andaluzita -; Granitoides Ourém, Jonasa, Japiim (8) - sendo o corpo Ourém formado por granitos, Jonasa por monzogranitos e granodioritos, e Japiim por leucosienogranitos a granodioritos -; e Cantão (8) - biotita-monzogranito desprovido de mica branca primária -; Nefelina Sienito- Gnaisse Boca Nova (8) - intrusão alcalina sienítica metamorfizada e deformada, apresentando estrutura gnáissica e migmatização restrita -; e Granito Ney Peixoto (8) - granitos com duas micas, de granulação dominantemente média, podendo apresentar porções pegmatoides.


Coberturas sedimentares diversas


As formações Igarapé de Areia, Viseu e Piriá (13) são interpretadas como bacias molássicas, com pacotes dobrados e foliados, localmente anquimetamorfizados. Extensas bacias sedimentares fanerozoicas, intracratônicas ou de margem continental passiva ocorrem cobrindo toda a região.


Depósitos de fosfatos


Supergênicos


O depósito de Cansa Perna ocorre junto ao depósito aurífero de Cachoeira e conta com menos de 100.000 t de minério com teor de 25% em peso de P2O5 (14).


O nível D, basal, corresponde a metassiltitos e filitos. O nível C é composto por solos de coloração variegada oriundos da alteração do nível subjacente, com o qual mostra contato gradacional, e já contém concentrações de fosfatos de alumínio (até 7% em peso de P2O5). O nível B é o principal hospedeiro da mineralização fosfática (média 16% em peso de P2O5) e contém também oxidos-hidróxidos de ferro. O nível A, superior, não é tão bem definido como os demais e é formado por crosta amarelada maciça ou vesicular, com fragmentos irregulares vermelhos cimentados por material fosfático amarelo.

Figura 5 – Fosfatos de alumínio (nível B) sobrepostos aos filitos aflorantes na base da escarpa do morro do Cansa Perna. Fonte: Costa (1980).


A variscita é o mineral-minério e é branca-amarelada maciça e dura, ou terrosa e mole, isotrópica, podendo ser cortada por vênulas de crandalita e wavelita (15). Os fosfatos são também enriquecidos em Sr e Rb, além de ETR, Ba, Zr, Nb, Y, V, Ga, Sc e U, tornando esses elementos importantes na prospecção de jazimentos similares.


Origem sedimentar/hidrotermal


Pequenos jazimentos de fosfato hidrotermal ocorrem nas imediações de Santa Luzia do Pará, na porção noroeste do Cinturão Gurupi. Em conjunto, possuem recursos estimados inferiores a 100.000 t de minério com 16% em peso de P2O5 (14).


O fosfato hidrotermal ocorre em veios e vênulas que preenchem fraturas ou formam pequenas disseminações em quartzitos, filitos, xistos e brechas do Grupo Gurupi. A composição mineralógica é variada em diferentes jazimentos: veios e brechas de quartzo e crandalita fibro-radiada; vênulas de wavelita; variscita (16).


A origem dos fosfatos é dada pela alteração de apatita sedimentar, supostamente presente nos metamorfitos do Grupo Gurupi, sendo a origem hidrotermal atribuída à remobilização pós-diagenética. Os veios e brechas seriam produtos de remobilização por tectonismo. (16)

Outra hipótese sugere adsorção do fósforo em argilominerais e matéria orgânica durante sedimentação e cristalização na diagênese, que seriam solubilizados e cristalizariam em veios hidrotermais de quartzo como crandalita, wavelita e variscita por metamorfismo (17).


Autor: Deniro Felipe

Referências


(1) Klein, E.L., Moura, C.A.V., 2008. São Luís craton and Gurupi belt (Brazil): possible links with the West African craton and surrounding Pan-African belts. In: Pankhurst, R.J., Trouw, R.A.J., Brito Neves, B.B., de Wit, M.J. (Eds.), West Gondwana: Pre-Cenozoic Correlations across the South Atlantic Region. Geological Society, London, Special Publications. 294, pp. 137–151.


(2) Klein, Evandro. (2014). METALOGÊNESE DO CRÁTON SÃO LUÍS E DO CINTURÃO GURUPI. 10.13140/2.1.1117.3446.


(3) Hasui Y., Abreu F.A.M., Villas R.N.N. 1984. Província Parnaíba. In: O Pré-Cambriano no Brasil. Edgard Blücher, São Paulo, pp. 36-45.


(4) Pastana J.M.N. 1995. Programa Levantamentos Geológicos Básicos do Brasil. Programa Grande Carajás. Turiaçu/Pinheiro, folhas SA.23-V-D/SA.23-Y-B. Estados do Pará e Maranhão. CPRM, 205p.


(5) KLEIN, E. L.; MOURA, C. A. V. (2001b) Síntese geológica e geocronológica do Cráton São Luís e Cinturão Gurupi: implicações para a litoestratigrafia e modelos geotectônicos. In: SIMPÓSIO DE GEOLOGIA DA AMAZÔNIA, 7., Belém, 2001. Resumos Expandidos. Belém, SBG. (CD-ROM).


(6) Klein E.L. & Moura C.A.V. 2001a. Age constraints on granitoids and metavolcanic rocks of the São Luís craton and Gurupi belt, northern Brazil: implications for lithostratigraphy and geological evolution. Intern. Geol. Rev., 43:237-253.


(7) COSTA, J. L.; ARAUJO, A. A. F.; VILLAS BOAS, J. M.; FARIA, C. A. S.; SILVA NETO, C. S.; WANDERLEY, V. J. R. (1977) Projeto Gurupi. DNPM/CPRM, 258 p. (Relatório inédito)

(8) COSTA, J. L. (2000) Programa Grande Carajás: Castanhal, Folha SA.23-V-C- Estado do Pará. Belém, CPRM. (Programa Levantamentos Geológicos Básicos do Brasil). CD-ROM

(9) LOWELL, G. R. (1985) Petrology of the Bragança batholith, São Luís craton, Brazil. In: BOARD, W.L.; WU, LI-JEN. The crust: the significance of granites-gneisses in the lithosphere. Athens, Theophrastus. p. 13-34.


(10) PALHETA, E. S. M. (2001) Evolução geológica da região nordeste do Estado do Pará com base em estudos estruturais e isotópicos de granitóides. Belém, 144 p. Dissertação (Mestrado) - Centro de Geociências, Universidade Federal do Pará.


(11) Technical Report on the Aurizona Gold Mine Expansion Pre-Feasibility Study. Maranhão, Brazil Report Date: 2021-11-04. Equinox Gold.


(12) Klein, E. L.; Lucas, F. R. A.; Queiroz, J. D. S.; Freitas, S. C. F.; Renac, C.; Galarza, M. A.; Jourdan, F.; Armstrong, R. (2015) Metallogenesis of the Paleoproterozoic Piaba orogenic gold deposit, São Luís cratonic fragment, Brazil, Ore Geology Reviews, Volume 65, Part 1, Pages 1-25, https://doi.org/10.1016/j.oregeorev.2014.07.022.


(13) ABREU, F. A. M.; VILLAS, R. N. N.; HASUI, Y. (1980) Esboço estratigráfico do pré-cambriano da região do Gurupi; Estados do Pará e Maranhão. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE GEOLOGIA, 31., Camboriú, 1980. Resumos expandidos. Camboriú, SBG, v. 2, p. 647-658.


(14) Oliveira N.P. & Costa M.L. 1984. Os fosfatos aluminosos do Pará e do Maranhão: estágio atual de conhecimentos e estratégia para o aproveitamento econômico. Ciências da Terra, 10:16-19.


(15) Costa M.L. 1978. Geologia, mineralogia, geoquímica e gênese dos fosfatos de Jandiá, Cansa Perna e Itacupim no Pará e Trauira e Pirocaua no Maranhão. Tese de Mestrado, IG/UFPA


(16) Oliveira N.P. 1977. Fosfatos da região de Santa Luzia (nordeste do Estado do Pará). Tese de Mestrado, Curso de Pós-Graduação em Ciências Geofísicas e Geológicas, Universidade Federal do Pará, Belém.


(17) Costa M.L. 1985. Petrologia e geoquímica dos xistos carbonosos de Santa Luzia (Ourém-PA). In: SBG, Simpósio de Geologia da Amazônia, 2, Belém, Anais, v. 2, p. 18-32.






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