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Borda Oriental do Cráton Amazônico

A borda oriental do Cráton Amazônico, localizada no Brasil, forma uma faixa alongada e engloba a porção sudeste do Escudo do Brasil Central. Também, abrange as partes leste e nordeste do Escudo das Guianas, estendendo-se pelos países homônimos até o leste venezuelano.


Esta área coincide com as províncias geológicas-geocronológicas Transamazonas e Maroni-Itacaiunas, que representa uma expressiva faixa orogênica consolidada no Paleoproterozoico, durante o Ciclo Transamazônico de orogenias (2,26 a 1,95 Ga). Internamente, essa faixa é heterogênea em termos de constituição e evolução geológica, possuindo diferentes domínios tectônicos.


Os recursos minerais da borda oriental do Cráton Amazônico, no Brasil, incluem depósitos de Au, Cr, Fe, Mn, U, Ni, Ti, Sn, Nb-Ta, e diamante, apresentando ainda potencial para Cu, Zn, EGP e torianita. A formação dos depósitos minerais concentrou-se no período orogênico de evolução regional, mas estende-se no tempo geológico do Arqueano até o Paleógeno.

Figura 1: Mineração de Manganês no Amapá. Fonte: IMAP


CONTEXTO GEOLÓGICO E SUA EVOLUÇÃO


A borda oriental do Cráton Amazônico encontra-se nos terrenos birrimianos do oeste da África, assim como a Província Transamazonas, formada durante a orogênese Eburneana. São terrenos juvenis paleoproterozoicos, com evolução envolvendo a subducção de litosfera oceânica (arcos de ilha e arcos magmáticos continentais). Em outras palavras, constituem remanescentes de crosta continental mais antiga, dominantemente arqueana, intensamente retrabalhada durante o Ciclo Transamazônico de orogenias.


É subdividida em cinco domínios tectônicos: domínios Bacajá, Santana do Araguaia, Carecuru, Lourenço e Bloco Amapá, destacando-se os três últimos e seus depósitos minerais.

Figura 2: Subdivisão do Cráton Amazônico em províncias tectônicas-geocronológicas. Localização da Província Transamazonas (borda oriental do Cráton Amazônico) e de seus domínios tectônicos. Adaptado de Vasquez et al. (2008) a partir de Almeida et al. (1977) e Santos (2003).


BLOCO AMAPÁ

Representa um segmento de crosta continental arqueana durante o Ciclo Transamazônico, quando foi deformado, metamorfisado e seccionado por diversos corpos magmáticos em distintos estágios orogênicos (Fig. 2).


Seu embasamento é constituído por uma associação granito-gnáissico-migmatítica de alto grau, com metamorfismo variando da fácies anfibolito alto a granulito, representada principalmente pelos complexos metamórficos ortoderivados.


De acordo com o modelo Sm-Nd (TDM), as idades obtidas nestas unidades arqueanas de embasamento demonstram que o principal período de formação de crosta continental no Bloco Amapá ocorreu entre 2,83 e 3,31 Ga. Evidências geocronológicas e petroestruturais demonstram que o embasamento do Bloco Amapá foi afetado por um evento granulítico entre 2,10 e 2,08 Ga, durante o estágio colisional do Ciclo Transamazônico, e por eventos tectonotermais mais jovens, em estágio tardi- a pós-colisional.


DOMÍNIO CARECURU

Representa um segmento crustal paleoproterozoico, composto principalmente por granitoides e gnaisses cálcio-alcalinos e faixas de rochas metavulcanossedimentares.


Esses conjuntos definem uma associação do tipo granitoide-greenstone de 2,19-2,14 Ga (Pb-Pb em zircão), com idades modelo Sm-Nd (TDM) entre 2,50 e 2,28 Ga. A associação litológica e as características isotópicas indicam evolução relacionada ao arco magmático desenvolvido durante o estágio convergente do Ciclo Transamazônico.


A presença frequente de zircões herdados arqueanos nos granitoides são evidências da participação da crosta continental arqueana na origem dos magmas granitoides. O significado tectônico de rochas arquenas neste domínio pode ser interpretado como evidência do prolongamento da crosta arqueana do Bloco Amapá, preservada nas raízes do arco magmático Carecuru.


Na porção sul, o Complexo Alcalino Maraconaí é alcalino-carbonatítico do Neoproterozoica. Neste corpo ocorrem rochas piroxenitos e dunitos na porção central, e pequenos corpos de sienitos, nordmarkitos e alaskíticos em bordas.


DOMÍNIO LOURENÇO

É o segmento que ocorre a norte do Bloco Amapá, estendendo-se por toda a porção setentrional do Estado amapaense. Trata-se de um domínio paleoproterozoico semelhante ao Domínio Carecuru.


Caracteriza-se por uma associação tipo granito-greenstone, representada por um conjunto de gnaisses e granitoides de composição dominantemente diorítica, tonalítica e granodiorítica. A idade datada é entre 2,18 e 2,16 Ga e por diversas faixas de rochas metavulcano-sedimentares, sendo as mais expressivas as das regiões do garimpo do Lourenço (Grupo Serra Lombarda) e do Tartarugalzinho.


Na região, a geoquímica é de cálcico-alcalina metaluminosa a peraluminosa para um conjunto de tonalitos e granodioritos. Estes granitoides aparentemente são intrusivos no Grupo Serra Lombarda e foram interpretados como gerados em ambiente de arco magmático juvenil.

Figura 3: Distribuição dos principais depósitos minerais nos domínios Lourenço, Amapá e Carecuru. Fonte: Evandro Klein.


DEPÓSITOS SUPERGÊNICOS DE MANGANÊS DO BLOCO AMAPÁ


Os depósitos do Distrito Manganesífero de Serra do Navio foram descobertos na década de 1940 do século passado e estão localizados na porção central do Estado do Amapá, na margem esquerda do rio Amapari.


Os depósitos formaram-se por enriquecimento supergênico, em condições tropicais, do protominério manganesífero associado ao Grupo Vila Nova. Na Serra do Navio, o Grupo Vila Nova forma uma estrutura alongada segundo NW-SE. É composto por um pacote espesso de anfibolitos (Formação Jornal) depositados sobre o embasamento gnáissico arqueano e sobrepostos por xistos com almandina, andalusita e sillimanita) quartzosos ou grafitosos, quartzitos e lentes de protominério manganesífero da Formação Serra do Navio.


A Formação Serra do Navio foi metamorfisada na fácies anfibolito, zona da almandina, e está dobrada isoclinalmente e com eixos apertados orientados segundo N30°-40°W . Quatro tipos de minério foram identificados: (1) eluvial: material rolado em encostas), (2) maciço, (3) xistoso (formado pela substituição parcial ou total de Fe, SiO2 e Al2O3 dos minerais dos xistos encaixantes por óxidos de manganês), (4) protominério carbonático e granatífero (gondito).


A gênese do minério envolveu estágios sedimentares, metamórficos e supergênicos. Os calcários manganesíferos, puros ou não, se depositaram em ambiente redutor em associação com pelitos ricos em matéria carbonosa (agora xistos grafitosos).


A deformação e o metamorfismo, em fácies anfibolito, provocaram modificações nas formações manganesíferas resultando nas lentes de protominério carbonático (a partir de níveis ricos em carbonato de manganês) e gondítico (a partir de níveis silicáticos granatíferos). A exumação da sequência e o intenso intemperismo tropical levaram ao enriquecimento supergênico do minério.

Figura 4: Ilustração da associação de Manganês a rochas sedimentares localizadas na Serra do Navio, Amazonas. Fonte: CPRM.


METALOGÊNESE DE CARECURU - DEPÓSITOS DE COBRE VULCANOGÊNICO


Localiza-se na porção noroeste da Serra do Ipitinga e foi identificada em 1978 por meio de pesquisas, como mapeamento geológico e sondagem. A ocorrência está associada a um corpo eletrocondutor detectado por Polarização Induzida. Possui extensão longitudinal superior a 10 km, largura projetada na superfície de 50-700 m, profundidade do topo entre 35-70 m e mergulho de 60° para nordeste, concordando com a estruturação das rochas hospedeiras. Numa intersecção de 0,5 m foram detectados até 1% de cobre, 8-11 ppm de ouro e 49-79 ppm de prata.


A ocorrência Flexal-Patos está hospedada em rochas do Grupo Ipitinga de 2267 ± 66 Ma. Essas rochas são xistos ricos em quartzo-clorita ou antofilitacordierita, interpretados como basaltos oceânicos hidrotermalizados com assinaturas químicas toleiítica e komatiítica, cuja gênese estaria relacionada a um centro de extensão e expansão de fundo oceânico, em um sistema de bacia retroarco.


O minério possui aspecto semi-maciço e é composto por pirita, pirrotita, calcopirita, esfalerita, ouro e prata. As condições de temperatura e pressão da mineralização foram estimadas entre 250º e 450ºC e 0,7 a 2,3 kbar, respectivamente, a partir de inclusões fluidas ricas em metano, contendo proporções variáveis de N2, H2S e CO2.


A mineralização é do tipo vulcanogênica exalativa sindeposicional (VMS), tendo os metais sido lixiviados provavelmente das rochas encaixantes. Nesse caso, a mineralização teria ocorrido em torno de 2,26 Ga.


METALOGÊNESE DO DOMÍNIO LOURENÇO - Depósitos sedimentares de ferro


Um depósito e ocorrências de ferro de origem sedimentar localizam-se no médio curso do rio Tracajatuba, na margem esquerda do rio Araguari. O depósito de Tracajatuba (Mina da Sólida) possui reservas entre 135-200 Mt com 69% de Fe. O minério está associado a quartzitos e itabiritos com magnetita da sequência metavulcano sedimentar de Tartarugalzinho. Esses depósitos sedimentares teriam se formado por volta de 2,26 Ga.

Figura 5: Formação ferro manganesífera bandada. Fonte: CPRM lança estudos sobre recursos minerais do Pará e Amapá


Autora: Izamara Verteiro

Referências:

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