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Metalogenia da Região de Aripuanã

Introdução


A região noroeste do estado de Mato Grosso é reconhecida como um significativo polo mineral, com uma história marcada pela intensa atividade garimpeira nas décadas de 80 e 90, com foco especial na exploração de depósitos de ouro. Entre os importantes alvos de interesse nessa região destaca-se o Alvo Aripuanã, também conhecido como Depósito Polimetálico da Serra do Expedito. Localizado na porção sudoeste do Cráton Amazônico, inserido no domínio geológico da Província Rio Negro-Juruena, Aripuanã é um depósito polimetálico de Zinco-Chumbo-Prata (Cobre, Ouro) de Sulfeto Massivo Vulcanogênico (VMS).


Descoberto em 1998, é uma propriedade da Votorantim Metais e da Karmin Exploration Corporation. Em 2011, foi anunciada a descoberta de recursos totais de 11,6 Mt de rochas mineralizadas com teores de 6,29% Zn, 2,25% Pb, 0,07% Cu, 65 g Ag/ton e 0,25 g Au/ton. Em 2003, a Karmin Exploration Inc. anunciou 27,7 Mt de recursos indicados com teor equivalente a 6,44% Zn, além de 5,8 Mt de recursos possíveis com teor equivalente a 6,52% Zn no depósito.


A geologia da região é caracterizada pela presença de três unidades estratigráficas principais: a Sequência Aripuanã, o Granito Rio Branco e a Formação Dardanelos.A Sequência Aripuanã, representativa da evolução paleoproterozóica local, é composta por rochas vulcano-sedimentares e plutônicas, incluindo granitos hipoabissais porfiríticos. O Granito Rio Branco, um corpo intrusivo de dimensões batolíticas, exibe fácies de sienogranitos porfiríticos de granulação grossa. Por fim, o Grupo Caiabis, representado pela Formação Dardanelos, é caracterizado por ortoconglomerados e indica um contexto deposicional costeiro. Nesse cenário geológico complexo, destaca-se o Alvo Aripuanã como um importante alvo de exploração mineral.


Contexto Geológico e Tectônico


O depósito de Aripuanã se formou há aproximadamente 1762-1755 milhões de anos, durante a orogenia Quatro Cachoeiras (compreendida entre 1.689 e 1.632 milhões de anos), quando toda a sequência geológica foi dobrada, folheada e metamorfizada até atingir a fácies de xisto verde. Após um período de inatividade geológica de cerca de 70 milhões de anos, a província Rondônia-Juruena foi intrudida pelos granitos Rio Branco, datados de aproximadamente 1542 ± 2 milhões de anos (Rizzotto et al., 2002, apud Biondi et al. 2011). Esses granitos provocaram metamorfismo térmico e metassomatismo em rochas relacionadas ao depósito.


Posteriormente, durante um regime extensional, a bacia de Dardanelos foi aberta (há cerca de 1,4-1,2 bilhão de anos) e preenchida com conglomerados polimíticos e rochas arcosas. Essas rochas foram posteriormente cortadas por diques e soleiras da Formação Arinos (com idades entre 1416 e 1225 milhões de anos).



Figura 1 - Resumo da geologia da região de Aripuanã 1:250.000 (Albuquerque e Oliveira, 2007a, apud Biondi et al. 2011). A jazida Aripuanã está localizada na parte oeste da caldeira principal de Aripuanã, cujos limites aproximados estão designados no canto superior esquerdo desta figura. Observe a localização de Aripuanã, no Estado de Mato Grosso, no sul do cráton Amazonas (Província de Rondônia-Juruena) (Biondi et al. 2011).


Caracterização da Mineralização


O Depósito Polimetálico da Serra do Expedito é constituído por três corpos de minério chamados Valley, Massaranduba e Babaçu, estando a mineralização sulfetada na subunidade de tufos e rochas sedimentares químicas, estando delimitadas por zonas de cisalhamento e de brechas. Os corpos de sulfetos são divididos texturalmente em bandados e disseminados. Enquanto os bandados possuem alternância de zonas ricas de pirita ou pirrotita e zonas de esfalerita, lembrando uma feição singenética; os disseminados se apresentam em veios, stringers, espaços vazios, como boxworks ou veios crustiformes.


Os minerais minério que ocorrem em ambas texturas são:

  • Galena de granulação fina a grossa, ocorrendo em veios e em preenchimento de cavidades;

  • Esfalerita, possuindo duas gerações, a primeira de granulação fina e brilho metálico e a segunda de granulação grossa, brilho vítreo e cor marrom;

  • Pirita de granulação fina, ocorrendo em veios e segregações, com bordas corroídas;

  • Pirrotita de granulação fina, ocorrendo em cristais granulares e como gotas alongadas;

  • Calcopirita de granulação fina, preenchendo fraturas de dilatação e associada à pirrotita e em bordas ricas de pirita;

  • Magnetita de granulação fina a média, substituindo sulfetos com textura porfiroblástica;

  • Cassiterita de granulação muito fina, ocorrendo como grãos microcristalinos.


Alteração Hidrotermal


No Depósito Valley, a alteração hidrotermal consiste de um envelope tabular de 200 m de espessura subparalelo às lentes sulfetadas (Néder et al. 2001, apud ADIMB, 2005). O padrão zonado e simétrico consiste em três zonas:

  1. Zona Externa – com biotita porfiroblástica imersa em matriz de clorita e biotita;

  2. Zona Intermediária – é uma associação cálcio-silicatada de tremolita-clorita, caracterizada por textura mosqueada as vezes brechada com porfiroblastos de anfibólio;

  3. Zona interna – uma associação de porfiroblastos de clorita e magnetita substituindo a matriz sulfetada, que envolve a zona brechada e hospeda depósitos de Zn-Pb.


Caracterização das Zonas Mineralizadas


A mineralização denominada AREX pela Anglo-American, quando começou os primeiros estudos e pesquisa sobre a viabilidade econômica da área, é composta pelo corpo de minério Valley, cujas zonas mineralizadas estão associadas ao corpo Toddy. As características obtidas em furos de sondagem dão ênfase na mineralogia, distribuição da alteração hidrotermal  e forma de ocorrência.


O corpo Valley, apresenta essas zonas mineralizadas no contato entre a sequência basal de rochas vulcânicas com a sequência de topo formada por tufos maciços e estratificados apresentando intenso hidrotermalismo.


As rochas hospedeiras apresentam cloritização que grada para alteração a base de tremolita + clorita + biotita + carbonato + quartzo, predominando clorita, tremolita ou biotita com ou sem carbonato nas proximidades da mineralização.

Foi também encontrado nos furos uma sequência de rocha carbonática maciça, de origem sedimentar química que alterna com a zona de alteração com a zona de alteração a base de tremolita + clorita + biotita.


A mineralização em si ocorre de três formas:

  • Mineralização primária: Apresenta uma sequência descontinua de sulfeto maciço a semi-maciço, constituídos por esfalerita, galena, pirrotita, pirita, calcopirita e magnetita, junto a carbonato e com quartzo e clorita (a) Em Carbonato, quartzo e clorita preenchem espaços vazios em sítios intergranulares dos sulfetos ou em forma arredondada. Os carbonatos ainda formam bandas milimétricas (b), alternadas com bandas de sulfetos. O sulfeto maciço apresenta ou envolvido pela alteração de tremolita + clorita + biotita ou hospedado na rocha carbonática. Ocorre um rede de vênulas (c) do tipo stringer zone nas porções basais do sulfeto maciço rica em calcopirita.

  •   Retrabalhamento: ocorre disseminações e ou agregados de esfalerita + pirrotira + galena + pirita nas zonas de alteração (d), e veios irregulares que cortam a zona de alteração hidrotermal próximo aos corpos de sulfeto maciço (e) de quartzo ± carbonato ± agregados de tremolita-clorita com espessura de até dezenas de centímetros.

  •  Reconcentração: Veios de quartzo de espessura métrica em contato brusco com as rochas encaixantes, pobres em sulfeto, com agregados dispersos de biotita, destituídos de tremolita e alguns podem apresentar mineralização tardia de ouro (filoniana) associados a metais básicos.


Estas características apontam a possibilidade de uma complexa evolução da mineralização com a sua fase primária, seu retrabalhamento durante o metamorfismo de contato gerado pela intrusão do granito Rio Branco e sua reconcentração em veios de quartzo nas zonas de cisalhamento (ADIMB, 2005).



Figura 2 – (a) Zona de alteração a tremolita (cor esverdeada) + clorita (cor verde escuro) (amostra da esquerda e do meio, respectivamente) gradando para sulfeto maciço rico em esfalerita (parte inferior da amostra do meio e amostra direita). Notar carbonato  quartzo formando pequenos aglomerados, possivelmente preenchendo cavidades. (b) Sulfeto maciço constituído por pirita + pirrotita + esfalerita + galena + calcopirita. Notar laminações de carbonato  quartzo, sugerindo possível S0. (c) Zona de rocha carbonática, com venulações de carbonato próxima ao contato com o sulfeto maciço. (d) Zona de alteração dominada por tremolita (tremolitito) seguida por sequência de rocha carbonática (amostra inferior, parte clara), ambas sulfetadas (esfalerita- cor avermelhada-  galena  pirrotita  pirita  calcopirita). (e) Veio irregular de quartzo com galena + pirita, cortando sulfeto maciço na zona de alteração a tremolita (cor esverdeada) + clorita (cor verde escuro), notar que os sulfetos se concentram ao longo de fraturas (ADIMB, 2005).

Metalogênese


Quanto à gênese do depósito, a hipótese é de que ele tenha se formado em um contexto de um ambiente em subsuperfície semelhante a gênese de depósitos VHMS. Fluidos hidrotermais marinhos aquecidos, enriquecidos em metais dissolvidos das rochas encaixantes se concentraram formando o depósito. As encaixantes são uma sequência de rochas metassedimentares (quartzitos, turbiditos, ritmitos, sedimentos subaquosos e rochas carbonáticas laminadas) depositadas em cima de uma caldeira vulcânica submarina, composta por lavas dacíticas e riolítos ignimbritos.  


Inicialmente, ocorre a exalação hidrotermal simultaneamente à sedimentação dos carbonatos e fragmentos de rochas piroclásticas (A). Em seguida, ocorre o primeiro ciclo vulcanogênico hidrotermal, precipitando corpos mineralizados maciços e em veios (B), seguidos de um vulcanismo explosivo com emissão de nuvens de cinzas, e fluxos turbidíticos, gerando turbiditos e ritmitos carbonáticos (C) e terminando com o soterramento dos corpos mineralizados do primeiro ciclo (D). Posteriormente ocorre o segundo ciclo vulcanogênico hidrotermal com novas zonas mineralizadas gerando lentes de rochas mineralizadas (E), o metamorfismo regional fácies xisto verde, recristalização e deformação, seguidas pela intrusão do granito Aripuanã, causando metamorfismo de contato, há 1.54 Ga e metassomatismo das rochas e corpos mineralizados (G) (Biondi et al. 2011). 




Figura 3 – Interpretação da sequência de eventos que geraram o depósito de Aripuanã (Biondi et al. 2011).

Autores: Stéphano Ben Hur e Carolina Alves

Referências


  • BIONDI, J. C.; SANTOS, R. V.; CURY, L. F. The Paleoproterozoic Aripuana Zn-Pb-Ag (Au, Cu) Volcanogenic Massive Sulfide Deposit, Mato Grosso, Brazil: Geology, Geochemistry of Alteration, Carbon and Oxygen Isotope Modeling, and Implications for Genesis. Economic Geology, v. 108, n. 4, p. 781–811, 2 maio 2013.

  • DE, C.-A.; ALFREDO, J.; LEITE, D. CAPÍTULO X CARACTERIZAÇÃO DO DEPÓSITO POLIMETÁLICO (Zn, Pb, Ag, Cu-Au) DE ARIPUANÃ, MATO GROSSO - CARACTERIZAÇÃO DE DEPOSITOS MINERAIS EM DISTRITOS MINEIROS DA AMAZÔNIA. Brasília: DNPM - CT/MINERAL-ADIMB, 2005. Disponível em: <https://www.adimb.com.br/publicacoes_amazonia/Indice/Cap_X.pdf>. Acesso em: 20 abr. 2024.

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